Estou a escrever esta mensagem, para expressar a minha indignação, a minha incredulidade, a minha zanga...
Nem tudo é lindo quando se tem um cão.
Vou contar o que aconteceu...
Fui passear o Scott a um jardim perto da minha área de residência.
É um jardim que tem uma pequena área com baloiços para crianças e uma boa extensão de relvado em volta e onde é muito frequente as pessoas irem passear os seus cães por 3 motivos:
1º - É um jardim onde não existe proibição de passear cães.
2º - Tem á entrada uma construção de madeira e areia própria para os donos levarem os seus cães a fazer necessidades e á saída tem uma espécie de um poste de latão com sacos de plástico disponibilizados pela junta de freguesia para que os donos os usem para apanhar as fezes dos seus cães.
3º - Tem um bom espaço relvado onde os cães podem correr á vontade.
E para mim tem ainda o 4º motivo que é o facto de ficar a poucos metros de minha casa.
Ora estava eu muito sossegada a chegar ao relvado com o Scott quando oiço nas minhas costas uma voz a dizer:
-Não não não!
Assustei-me porque não tinha visto ninguém a não ser duas miúdas a conversarem sentadas nos baloiços e que estavam a pelo menos uns 200 metros de mim.Quando me viro para ver quem estava a falar vejo um senhor que repete:
-Não! Não!
E que estava obviamente a falar para mim embora eu não percebesse inicialmente o porquê.
- Vai soltar o cão na relva?
- Não... - respondo eu ainda confusa
- Ah, mas anda com ele na relva! Acha bem?
- Acho, senão não andava.
- Acha então bem o cão andar na relva e em todo este jardim para crianças?! - pergunta-me o homem com cara de quem vai dar uma lição de moral a alguém.
- O jardim é para crianças e adultos e quem cá queira vir, mas também é para cães visto não haver nenhuma proibição. - digo eu com a raiva a florescer-me entre cada palavra agora que já tinha percebido a intenção deste idiota.
- Desculpe lá mas não vai andar com o cão aqui. - diz-me o homem com toda a autoridade, como se mandasse em mim ou eu fosse sua filha... sei lá, como sou nova, de alguma maneira este porco chauvinista pensou que podia "cagar as suas postas de pescada" sem que nada de mal se passasse.
As duas miúdas (que deviam ter entre 8 a 10 anos) que estavam inicialmente nos baloiços, vieram a correr para o pé do homem, que pelos vistos devia estar com elas. E estavam-se a rir porque achavam a discussão muito interessante. Isso fez-me pensar que aquela besta daquele homem já devia fazer este tipo de coisas habitualmente.
Eu sou bastante tímida com desconhecidos e noutra situação tinha metido o rabo entre as pernas e vinha-me embora aflita para casa. Mas esta grande BESTA estava a meter-se com o meu cachorro! E com o meu cachorro que ninguém se atreva a meter!
- Olhe - começo eu, tentando permanecer calma mas ao mesmo tempo, querendo dizer tudo e mais alguma coisa àquele acéfalo daquele homem - Já entendi que o senhor não gosta de animais, particularmente de cães, e tem todo o direito de não gostar. Mas já que não gosta de cães, o melhor para si, seria escolher um jardim onde fosse proibido passear cães, aqui na cidade tem muitos, como por exemplo o jardim Álvares Vidal.
- Ah, eu não disse que não gosto de cães! Mas gosto mais da minha filha! - diz-me a grande besta
Quer dizer, a besta estava a querer dizer que eu trato o cão como se fosse meu filho e que considero o meu cão mais importante que as crianças! É que mesmo que isso fosse verdade - que não é! - não era nada da conta dele! Fiquei tão indignada, tão chocada, tão revoltada, que por momentos não disse nada.
Até que respirei fundo e disse com muita calma:
- Eu não ponho em questão tal coisa, o seu problema é que neste jardim, o senhor é forçado a guardar para si a sua antipatia face aos cães, porque não só não é proibido passear os cães aqui, como até é incentivado visto que atrás de si tem uma área para os cães fazerem necessidades e ali á frente tem um poste que tem sacos para as pessoas recolherem as necessidades dos seus cães. Deixe-me desde já preveni-lo de que se encontra num jardim onde é hábito haverem pessoas a passearem os seus cães. Por isso eu vou passear o meu cão aqui, eu estou perfeitamente dentro da lei e não lhe devo quaisquer tipos de explicação nem vou permitir que o senhor continue a abordar-me nesses termos!
Aqui o homem deve ter percebido que eu estava danada. Que se eu pudesse até lhe batia para ver se lhe tirava a estupidez ao estalo! O grande idiota! Então mudou do tom de arrogante e autoritário, para moralista:
- Não interessa o que diz a lei! Acha moralmente correcto o cão andar na relva para onde vão as crianças brincar?
- Acho moralmente correcto. Acho até moralmente muito mais correcto do que os meninos e as meninas que vêm jogar á bola para cima da relva e que assim destroem.
- Mas tenha paciência e não faça isso aqui! - diz-me a bestiola. - Já viu a relva cheia de cócó de cão?
- Ah! Então o seu problema é o cocó de cão! Mas a lei não diz que os cães não podem fazer cócó na relva, pois não? Os cães podem desde que os donos apanhem as fezes dos seus cães do chão. Está a ver esta bolsinha na trela do meu cão? Tem lá dentro um rolo de sacos plásticos que servem para isso mesmo. Eu apanho o cocó do meu cachorro do chão. Mais uma vez eu estou dentro da lei e não lhe devo explicações nenhumas. Se os outros donos apanham a porcaria dos cães deles ou não, isso eu já não sei, terá de lhes perguntar a eles, se eles não o fizerem o máximo que pode acontecer é um dia serem apanhados pela polícia e terem de pagar uma coima.
- Pois, isso é muito bonito mas a relva está toda suja á custa dos cães.
Aí eu passei-me porque percebi que o homem era realmente estúpido mas também muito BURRO e que com algumas pessoas não vale mesmo a pena perdermos o nosso tempo pois elas são casos perdidos. Para além disso, já era tarde e eu estava cansada. Por isso desisti e disse:
- Olhe, eu vou-me embora porque já é tarde, estou cansada e não tenho obrigação nenhuma de aturar a sua falta de educação. Quanto a si e á sua filha, lamento pela sua filha que está a ver o pai a fazer figura de parvo mas pela cara de gozo da menina já deve ser habitual.
Virei costas e fui-me embora.
É claro que fiquei tão danada que mal consegui estudar em paz no resto desse dia. A minha mãe e os meus tios quando lhes contei, disseram que eu não devia ter dado tanta confiança ao homem, que devia virar costas e deixa-lo a falar sozinho. Mas mesmo assim eu não fiquei satisfeita.
Porque quem virou costas e se foi embora fui eu. Este homem ficou com toda a sua prepotência a pensar que ganhou o caso visto que eu virei costas e ele lá ficou no jardim.
Sinceramente, as pessoas e a sociedade em geral deviam abrir o minimo de possibilidades a este tipo de gente que se acha mais que tudo e que todos (incluindo a própria lei). Estas pessoas, estes pequenos Hitlersinhos, estes pequenos ditadores, deviam chegar a um ponto em que ou eram obrigadas a mudar a sua forma de ser ou caso contrário seriam escorraçados do mundo social...
É claro que não vivemos na Utopia... o nosso mundo é ainda muito imperfeito e por isso temos de aprender a saber lidar e defender-nos deste tipo de pessoas.
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